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VIDA, QUE TE QUERO VIVA!

VIVA, QUE TE QUERO VIDA!

Sebastião Carvalho

O PESCADOR E O FILÓSOFO

             O Rei tinha por rotina realizar uma audiência mensal, na qual tomava conhecimento de questões de seus súditos, para então analisá-las e resolvê-las.

            Numa dessas sessões, que se estendeu morosa e aborrecidamente por quase todo o dia, surgiu, finalmente, algo interessante.

            Saindo de um canto do salão, apresentou-se um humilde e tímido pescador que, após a saudação de praxe, anunciou que trazia um presente para o poderoso senhor, um agrado simples, porém sincero, fruto do seu labor.  E apresentou ao Rei uma cesta de peixes, preenchida somente até à metade.

            O soberano estranhou a oferta daquele meio presente, que contrariava os costumes, pois era de praxe que toda cesta de peixes dada ao Rei teria obrigatoriamente que estar abarrotada... mas conteve-se e, analisando rapidamente a situação, resolveu dar o troco àquele insolente súdito.  Pegando uma pequena bolsa, encheu-a com moedas até à metade, e, ofertando-a ao pescador, disse:

            -- Tendo recebido de ti uma modesta cesta meio cheia, bom e atencioso amigo, apresso-me em retribuir tamanha gentileza, oferecendo-te esta modesta bolsa meio vazia!  

            -- Meu Deus!  -- retrucou o pescador, permiti-me, ó bondoso Rei, fazer um ligeiro reparo às vossas palavras...  Eu, na verdade, vos ofereci uma cesta meio vazia; e recebo em roca, de vossas mãos, esta valiosa bolsa meio cheia!

            E arrematou, enfaticamente:

            -- A verdade deve ser dita, ó Rei! Aquele que dá, dá sempre a cesta meio vazia; aquele que recebe, recebe sempre a bolsa meio cheia. Pouco valem alguns peixes. Uma lembrança, nada mais, porém a dádiva de um Rei generoso e justo, não é um simples presente, mas um elogio!

            Surpreso com aquelas palavras, pronunciadas com desenvoltura por um simples pescador, de roupas encardidas e aparência bastante pobre, o Rei, dirigindo-se a seus assessores, disse:

            -- Vejam só como este bom e modesto pescador tem sensibilidade e inteligência! Dir-se-ia que na verdade se trata de um verdadeiro filósofo! Não acham?

            O pescador, atento às palavras do Rei, atalhou:

            -- Perdoe-me, poderoso Rei!  Mas acho natural que um pescador seja filósofo, pois sei de muitos filósofos que são pescadores.

            Os servidores do Rei admiraram-se da desenvoltura e inteligência do pescador, que estava dialogando de igual para igual com o poderoso senhor!...

            -- Filósofos pescadores? – estranhou o Rei – Muito me admira!

            Voltou-se então para o seu mais destacado assessor, um homem que era admirado por seu alto saber e reconhecida honradez, indagando:

            -- Julgas que esse pescador proferiu a verdade? Há filósofos que são pescadores? Não será uma fantasia ou um descabido exagero?

            Atendendo à ordem do Rei, o sábio manifestou-se com firmeza e emoção:

            -- Poderoso Rei, o que esse honrado pescador afirma é a mais pura verdade!  Quando me sinto fatigado de ler e de ouvir os filósofos, e os doutos senhores da lei; quando sou tomado pelo cansaço, por haver trabalhado duro em audiências intermináveis ou em aulas nas quais tenho que dar tudo de mim; quando sou vencido pelo tédio ao estudar velhos alfarrábios, -- pego a minha rede, meus apetrechos de pesca e vou com meu filho mais moço, até o meu rio preferido, fazer um pouco de pescaria!  Como isso me relaxa e repousa!...  Esqueço os problemas da vida, as inquietações do dia a dia, livrando-me por algumas horas das tristezas e dificuldades, passando a desfrutar de uma tranqüilidade que vivifica a minha existência, dando-me forças e ânimo para continuar!... A vida mais vivida não é a vida do filósofo, mas a do pescador!

Por isso, como disse o vosso inteligente súdito, há muitos filósofos que são pescadores.

            O Rei apreciou muitíssimo o depoimento de seu assessor-filósofo, mas restou em seu íntimo uma dúvida:

            -- Aceito que um filósofo possa ser também um pescador, mas duvido que o oposto possa ocorrer! Como pode um pescador tornar-se filósofo?

            --  Com a benevolente permissão do nosso poderoso monarca – disse o pescador -- vou tentar esclarecer essa dúvida.

            -- Nada há de estranho nessa possibilidade. Quando me sinto cansado da pesada faina de um pescador, quando minhas forças se mostram quase totalmente exauridas pelo trabalho duro do dia a dia, leio bons livros ou procuro a companhia de homens versados em filosofia, pondo-me também a filosofar! É realmente uma delícia esse exercício saudável, que nos tira do pesado e às vezes enfadonho cotidiano, levando-nos a visitar planos mais sutis da realidade, desenvolvendo nosso raciocínio e sensibilidade!

            O monarca mostrava-se encantado com tudo que estava ocorrendo no final de uma audiência que poderia ter sido mais uma corriqueira e enfadonha sessão de queixas e reclamações!  Agradeceu aos céus por tudo quanto lhe foi dado aprender com os seus nobres e inteligentes súditos, que presenteou com palavras de reconhecimento e sinceros agradecimentos...


SEBASTIÃO CARVALHO é sociólogo, professor, acadêmico do Cenáculo Fluminense de História e Letras, membro da ANE - Associação Niteroiense de Escritores, e antigo membro da A.B.I.   


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